* Por Audemário Prazeres, ex-presidente da SAR 

 

jorge_polman_home

PADRE JORGE POLMAN: PESSOA EM SI

Padre Jorge Polman, era um autodidata, extremamente disciplinado e bastante tenaz. Tinha uma personalidade forte, e não era nada receptivo as crenças, principalmente aquelas associadas com as pseudociências, como por exemplo a Astrologia e a Ufologia. O seu desenvolvimento com a Astronomia em Pernambuco se deu quando era professor de Ciências Físicas e Biológicas do antigo Colégio São João localizado no bairro da Várzea, quando de posse de um telescópio newtoniano de 4 “ (polegadas), no qual ele tinha trazido com ele da Holanda, iniciou em 1971 com seus alunos, determinadas práticas observacionais, que poderiam ser interpretadas de maneira bem complexas nos dias atuais, se aplicadas a estudantes iniciantes em Astronomia, como por exemplo: classificação e registro de Estrelas Variáveis, registro com contagem e classificação das Manchas Solares respeitando os verdadeiros pontos cardeais do disco solar projetado; contagem de meteoritos nos enxames e identificação de Radiantes e os “Fireballs”, e medições precisas em Eclipse Lunar tanto Parcial como Total.

MESTRE POLMAN, O FUNDADOR: “OBSERVAR… OBSERVAR… SEMPRE OBSERVAR!”

O lema acima, era o predileto do Pe. Jorge Polman, no qual foi publicado no boletim da LIADA número 23, Volume 7 em 1987, em uma Nota Editorial em homenagem ao grande mestre. Abaixo reproduzo a sua origem desse título acima, que era o IDEAL do Pe. Jorge Polman, ao qual dava as associações e aos astrônomos amadores. Este pensamento, foi publicado no boletim acima citado da LIADA, onde foi proferido pelo próprio Pe. Jorge Polman no II Congresso Mundial de Astronomia, realizado na cidade de Montevidéu no Uruguai em Dezembro de 1982.

“Que o esteio, a espinha dorsal de qualquer associação seja um programa rotineiro de observação, que seja observação de Variáveis; do Sol; Ocultações; Planetas; Lua; não importa o que. Mas que haja uma rotina, uma especialização que resulte em OBSERVAR, OBSERVAR, SEMPRE OBSERVAR” (Pe. Jorge Polman).

No dia 28 de Maio de 1974 foi formulado em Plenário na Assembléia Legislativa de Pernambuco, um requerimento de número 2972 de autoria do deputado Newton Carneiro, referente a um voto de aplausos ao Padre Jorge Polman, então Presidente da Sociedade Astronômica do Recife – S.A.R., mediante a sua dedicação e pioneirismo, no qual, criado com seus esforços, um centro de estudos de Astronomia, que já tinha despertado o interesse de inúmeros pernambucanos por esta importante ciência, que é a Astronomia. Este requerimento foi aceito por unanimidade pelos membros daquela casa, e teve como justificativa o seguinte:

“Graças ao pioneirismo do Padre Jorge Polman do Colégio São João, na Várzea, o Recife possui um micro-observatório embora carente de recursos, esse laboratório de Astronomia tem conseguido atrair interessados nas pesquisas do universo. É o primeiro que surge no Nordeste merecendo que as autoridades públicas aproveite esse exemplo e instale em nosso Estado, de preferência em Gravatá por estar sempre com céu limpo durante as 24 horas do dia e por ser esse o único município pernambucano que goza desse privilégio, um laboratório moderno capaz de se igualar com os melhores do mundo, pois o investimento feito seria recompensado com as pesquisas feitas”.

Não resta a menor dúvida que dentro da história da Astronomia em Pernambuco e até no Brasil, existem dois personagens holandeses extremamente importantes, sendo verdadeiros baluartes da ciência astronômica. Refiro-me ao astrônomo George Marcgrave, que no dia 01 de Janeiro de 1638 partiu da Holanda em uma viagem que durou cerca de dois meses, para chegar no Recife, em pleno período nassoviano em Pernambuco. E o também holandês Johannes Michael Antonius Polman nascido em 07 de Janeiro de 1927 na cidade de Amsterdan, chegando ao Brasil no ano de 1952. Até então, não era conhecido como Padre Jorge Polman, pois em sua chegada ao Brasil ele não era um padre. Esse feito veio ocorrer no dia 01 de Dezembro de 1957, quando no Seminário Menor da Várzea, que era pertencente a ordem do Sagrado Coração de Jesus, recebeu a ordenação de sacerdote, onde a partir desse momento ficou largamente conhecido como Padre Jorge Polman.

A SAR

No ano seguinte, em 1973, foi também criado pelo Pe. Jorge Polman, no mesmo endereço acima citado, a Sociedade Astronômica do Recife – S.A.R., na qual foi a primeira entidade de Astronomia em Pernambuco, registrada oficialmente em cartório, com Estatuto próprio, além de possuir o seu cadastro de CGC como uma instituição legal frente a Receita Federal. Esse registro da S.A.R., ocorreu no dia 21 de Junho de 1974, no livro 33-A, nas folhas 73 e 74 de ordem 2.303 no 2° Cartório de Títulos e Documentos do Recife.

Apesar do Clube Estudantil de Astronomia – C.E.A., ter sido criado pouco tempo antes da S.A.R., o seu registro juridicamente legal frente a Cartório e por conseguinte, o seu registro na Receita Federal com o CGC, só ocorreu na diretoria ao qual fui Vice-Presidente, onde tendo em mãos os estatutos da S.A.R., foram feitos algumas pequenas modificações, no qual adequamos como o Estatuto do C.E.A., desse modo, o registro oficial na sua forma legal, surgiu no Diário Oficial publicado em uma Terça-Feira do dia 30 de Julho de 1985. Desde então, o antigo C.E.A., não mais fazia uso da razão social da S.A.R., para assuntos do seu interesse. Naquela época, o interesse e curiosidade dos alunos pela Astronomia, fez com que Pe. Jorge Polman, iniciasse uma série de cursos de Iniciação em Astronomia. O primeiro desses cursos foi no ano de 1972, quando apenas 12 alunos receberam o seu diploma de conclusão, Já no ano de 1975, já havia mais de 100 alunos formados, onde em 1976, havia no antigo C.E.A., 45 sócios efetivos e 70 alunos, pertencentes a cerca de 26 colégios pernambucanos cursando o 2° ano do Curso, onde em moeda corrente de época, a matrícula tinha o valor de Cr$ 20,00 e a mensalidade de Cr$ 10,00 – O último desses brilhantes cursos ministrados diretamente pelo grande mestre Pe. Jorge Polman, na condição de INSTRUTOR, foram os realizados nos anos de 1983 à 1985, período esse na qual tive a grande oportunidade e satisfação, em ter sido seu aluno. Vale lembrar, que o número de freqüência (aquele de chamada de presença em sala de aula), era originário para cada aluno, mediante a ordem de matricula daqueles interessados no curso, e o meu número, que também estava contido na carteirinha de membro do C.E.A., era o 01 (um).

Esses cursos de Iniciação em Astronomia, compreendiam 02 anos de duração, sendo o primeiro ano fundamentos da Astronomia, e o segundo ano Práticas Observacionais. Logo depois em 1979, existia um curso de extensão, que era uma especialização voltado para técnicas observacionais, que tinha também mais um ano de aulas ministradas. Todos os cursos tinham aulas semanais, onde geralmente nas Quartas-Feiras eram os cursos de Iniciação, nas Segundas-Feiras eram outra turma mais avançada em Práticas Observacionais e por último, tinham nas Sextas-Feiras o curso de Extensão. Já os Sábados, as instituições S.A.R., e C.E.A., eram abertas para o grande público poderem conhecer o seu valioso acervo, tanto bibliográfico como instrumental, e realizarem observações dos astros e fenômenos em vigor.

QUEM ERA A SAR?

Um fato relevante que merece ser aqui destacado, é que observamos nos vários registros, sejam eles de correspondências antigas ou de boletins astronômicos publicados pelo Pe. Jorge, além é claro, de registros presentes nos periódicos das demais instituições congêneres, que houve naquele período décadas bem distintas em ambas instituições. Ou seja; na década de 70, vemos uma mobilização maior em termos de divulgação, da Sociedade Astronômica do Recife – S.A.R., onde vemos o Pe. Jorge exercer durante mais tempo o cargo de Presidente da S.A.R., é bem possível que este fato, tenha sido motivado por conta da idéia da cidade do Recife possuir o seu Planetário. Já na década de 80, possivelmente por não existir aquele ímpeto de construção do Planetário no Recife, a Sociedade Astronômica do Recife – S.A.R., ficou confinada a um simples armário existente no auditório, e observamos uma maior ênfase na divulgação do Clube Estudantil de Astronomia – C.E.A., com os seus cursos e observações astronômicas, tendo o Pe. Jorge Polman, ocupando em sua maioria o cargo de Conselheiro.

Esse fato fica melhor ilustrado, quando observarmos cartas e ofícios enviadas por ilustres autoridades da época, congratulando as nomeações de diretoria da Sociedade Astronômica do Recife – S.A.R., onde em sua maioria era no período em que Pe. Jorge Polman exercia o cargo de Presidente da S.A.R., e não do Clube Estudantil de Astronomia – C.E.A., que provavelmente devido a possuir suas origens no Colégio São João, quando Pe. Jorge era professor, possivelmente deveria haver algumas limitações impostas talvez pela diretoria do Colégio, ou pela ordem do Sagrado Coração, quanto ao envolvimento direto daquele Colégio junto a sociedade pernambucana, sendo atrelado a atividades em Astronomia. Afinal, esse feito era desenvolvido unicamente pelo Pe. Jorge, e não pelo Colégio propriamente dito. Algumas dessas mensagens de congratulações, apresento nos anexos desse trabalho, na forma de uma cópia em scanner. Percebam que eram manifestações proferidas por pessoas que ocupavam cargos de relevada importância, nas quais eram também, formadoras de opiniões, tais como: Deputado Federal Marco Maciel em 01/10/1975; Vice-Governador Barreto Guimarães em Janeiro de 1974; Reitor da Federal Prof. Marcionilo de Barros Lins em 01/02/1974; Centro de Ciências Matemáticas e da natureza Observatório do Valongo, seu Diretor Eduardo Machado; Prefeito da Cidade do Recife, Augusto Lucena em 21/03/1974; Governador do Estado Sr. Eraldo Gueiros Leite em 22/01/1974; Prefeito eleito Antônio Farias em 04/11/1975; Reitor da UNICAP, Mons. Rubens Gondim Lóssio em 10/09/1975; além de outras autoridades.

O COMEÇO DO FIM

Treze anos após a fundação de ambas instituições de Astronomia no Recife, surgiu uma solicitação por parte da Congregação requerendo o prédio onde ambas instituições estavam alojadas. Essa solicitação partiu pelo fato de ter havido mudanças na direção da ordem do Sagrado Coração, que não teve sensibilidade o suficiente para importância dos trabalhos ali desenvolvidos para a sociedade pernambucana. Esse momento era o ano de 1985, e a dita Ordem alegou aquele espaço iria ser construído uma casa de Repouso para padres idosos, como também, parte do setor administrativo da própria Congregação.

Desse modo, Pe. Jorge estava devidamente avisado e até foi fornecido um dilatado prazo para que o C.E.A., tivesse que sair daquele local e fosse em busca de um outro. Nesse período, a S.A.R., já se encontrava desativada, e era apenas destacada em um pequeno adesivo fixo em um velho armário de madeira, possuindo duas portas corrediças, onde ali era guardado todos os documentos da mesma. Desde então, ficou o antigo C.E.A., lutando em busca de um novo abrigo.

Muitos contatos foram estabelecidos, se procurou muitas pessoas simpatizantes daquele trabalho ali desenvolvido, e Pe. Jorge Polman, realizou uma entrevista com a jornalista Graça Gouveia, do Jornal Diário de Pernambuco, na qual repercutiu negativamente para o Pe. Jorge Polman. Essa matéria foi publicada em um dia de Domingo, mas precisamente no dia 30 de Junho de 1985 onde na Primeira Página tinha o chamamento para a matéria o seguinte título: “Clube vai Fechar”, e ao abrirmos na página A-8 daquele jornal, onde estava o artigo propriamente dito, nos deparamos com o seguinte título da matéria: “ASTRÔNOMOS AMEAÇADOS DE DESPEJO”. Após a publicação dessa matéria, houve muitas manifestações de apoio da sociedade pernambucana quanto a luta de uma nova Sede para o C.E.A., e também, a Congregação recebia telefonemas de indignação da população, quanto a retirada do C.E.A., daquele espaço. Com isto, em conversas bastantes reservadas, e não expostas publicamente, ficamos sabendo que Pe. Jorge Polman havia sido orientado pela Congregação para se afastar de qualquer atividade desenvolvida no antigo C.E.A.

Desse modo, foi criada uma Comissão, chamada Pró-C.E.A., que também contava com a presença de várias pessoas simpatizantes dos feitos astronômicos ali realizados. Essa Comissão, na qual tive a oportunidade de ser nomeado diretamente pelo Pe. Jorge Polman (que era neste dia o Presidente da Comissão), para exercer o cargo de Secretário substituto, mediante a ausência do titular desse cargo nessa reunião, que foi realizada no dia 17/07/1985.

Nessa Comissão, foi elaborado um Cronograma de Transferência do C.E.A., que tinha três fases bem distintas. A saber:

a) Fase 1 = Foi a apresentação da data-limite fixada pela transferência pelo Superior dos Padres do Sagrado Coração. (que foi no mês de Junho de 1987).

b) Fase 2 = Foi marcada para Maio de 1985, onde tinha com objetivo congregar o máximo de pessoas para estudarmos estratégia da mudança.

c) Fase 3 = Era subdividida em vários momentos bem distintos. A saber:

1) Até Julho de 1985 compreendia uma possível construção e aquisição de uma sede própria;

2) Até Dezembro de 1985, encontrar uma sede provisória em algum Colégio, Faculdade, etc.;

3) Até Maio de 1986, uma fusão com alguma entidade congênere;

4) Até Outubro de 1986, recorrer ao estado, Município ou Câmara;

5) Até Janeiro de 1987, Dissolução do C.E.A., e divisão dos bens patrimoniais a instituições do gênero, feita pela Direção dos Padres do Sagrado Coração, conforme o Regimento Cap. VI, Art. 28.

Nesse Cronograma estabelecido pela Comissão Pró-C.E.A., ainda eram exigidos certas facilidades para se abrigar o C.E.A., por parte de quem iria fazer uma doação da área. Essas “facilidades”, eu particularmente não a via com bons olhos, pois quem se encontra na condição de abrigo, não pode ser tão exigente como as “facilidades” estavam impostas. Conheça agora quais eram esses itens existentes nas “facilidades”: Sala para aula e biblioteca; lugar para observação em grupo; acesso fácil dia e noite; segurança para pessoas e patrimônio; linhas de ônibus; colocação de cúpulas; lugar para depósito e oficina; espaço para pequenas exposições permanente.

Com tantas exigências fixadas nessa Comissão, nas quais eram denominadas de “facilidades”, esses encontros com o perfil de Pró-C.E.A., acabou se transformando de “Anti-C.E.A”, criando indiretamente grandes empecilhos para as poucas propostas que surgiam visando uma obtenção de uma nova Sede. O resultado então, foi que estávamos perdendo muito tempo discutindo condições “técnicas” alinhadas com muita “burocracia acadêmica”, onde o problema era grave e o prazo fornecido pela Ordem tinha data fixada, na qual foi dado um prazo extremamente longo, no qual se fosse levado para uma esfera judicial, era uma causa ganha por parte da Congregação. Fato este que ocorreu, pois Pe. Jorge Polman não ficou nessa Comissão, bem como outras pessoas que estavam presentes desde o início, mediante sugestões equivocadas de não aceitar por exemplo: Um espaço ocioso existente na Faculdade de Odontologia em Aldeia, simplesmente pelo fato desse local não atender a “certas facilidades” (como citei acima). Alinhado a essa recusa impensada, feita a um dos únicos locais que se prontificaram em abrigar o C.E.A., houve também a entrada de pessoas novas a esta Comissão (algumas até conhecidas por já terem feito parte do C.E.A., no passado), e o argumento de que era melhor “brigar” judicialmente com a Congregação começou a tomar forma, fato este realizado e o resultado não poderia ser outro: Ganho de causa para a Congregação.

Quanto ao patrimônio do C.E.A., ainda hoje é desconhecido o seu paradeiro. Esse desconhecimento “estranho”, não foi acarretado pela Congregação, uma vez que ela não ficou com nada guardado, e nem tão pouco foi decisão dela doar para escolas, faculdades, etc. O que ela até poderia tomar esta iniciativa, mediante a própria Comissão Pró-C.E.A., ter decidido logo em sua primeira reunião (ao qual eu estava presente), uma decisão vinda diretamente pelo Pe. Jorge Polman, em que todos ali presentes concordaram de imediato, por entenderem ser um desejo final do próprio Pe. Jorge, ao qual estando de posse de uma cópia do Regimento Interno da Congregação afirmou o seguinte:

“Até Janeiro de 1987, Dissolução do C.E.A., e divisão dos bens patrimoniais a instituições do gênero, feita pela Direção dos Padres do Sagrado Coração, conforme o Regimento Cap. VI, Art. 28.”

Esta decisão citada acima pelo Pe. Jorge Polman, se encontra também escrita no Cronograma da Comissão Pró-C.E.A., em igual teor em seu item de letra “e”.

Esse triste episódio de não sabermos para onde foi exatamente aquele enorme patrimônio do C.E.A., felizmente nem eu e nem o próprio Pe. Jorge Polman, chegamos a observar com os próprios olhos. Afirmo isto, mediante a ocasião em uma determinada reunião da Comissão, rejeitaram o espaço dado pela Faculdade de Odontologia, pelo fato de não atender aos itens de ‘facilidades” que citei acima, simplesmente não mais participei dos encontros por considerar um verdadeiro absurdo tais imposições. Quanto a Pe. Jorge Polman, este não fez se quer um balanço do que o C.E.A., possuía, e nem tão pouco fez doações desse patrimônio. Na verdade, quando a Comissão começou a trilhar pela postura de “brigar” judicialmente, Pe. Jorge não mais fazia parte da Comissão Pró-C.E.A., e se retirou definitivamente para o seu novo aposento dentro da Ordem, e ficou de certo modo “restrito” a afazeres internos conforme determinações da Congregação.

Assim sendo, tendo na ocasião 60 anos de idade, ocorreu no dia 02 de Junho de 1987, às 11 horas da manhã, ainda em seu toalete no novo aposento interno da Ordem, o Pe. Jorge Polman foi vítima de um derrame cerebral, sendo socorrido as pressas no hospital Neuro situado na Av. Caxangá no Recife, ao qual não resistiu e veio a falecer ainda na U.T.I. Seu corpo encontra-se enterrado no Cemitério da Várzea (Recife), no enorme jazigo pertencente a Ordem do Sagrado Coração de Jesus, local este onde são enterrados seus sacerdotes.

Lamentavelmente, perdemos o nosso grande mestre, e particularmente não tenho a menor dúvida de que o derrame provocado, tenha sido por enorme desgosto, em saber que o seu IDEAL, que era as instituições C.E.A. e S.A.R., estavam chegando ao fim, juntamente com o seu precioso patrimônio, conquistado com muito trabalho e dedicação, estava tomando um destino ignorado.

Neste ano de 2004 completamos 17 anos de sua ausência. Pe. Jorge se estivesse vivo, estaria atualmente com 77 anos de idade. Como de “praxi”, este seu modesto discípulo sempre que possível faz uma breve visita em seu túmulo, com o intuito de “trocar umas idéias astronômicas”. Apesar de não saber ao certo o lugar onde ele se encontra no Universo, não tenho dúvidas que ele se encontra por lá, e se sente muito bem com este tipo de “prosa”.

Fazendo uma alusão a um pequeno trecho de uma música do conjunto pernambucano chamado Mundo Livre, ao qual é uma homenagem ao Cacique Chicão morto em um atentado no interior de Pernambuco, tem uma frase que particularmente, de uma maneira bem intima, é o meu verdadeiro IDEAL frente a Astronomia, ao qual associo ao fato do falecimento de Pe. Jorge Polman, e diz o seguinte:

“Ele não vai ser sepultado, vai ser enterrado, para germinar outras gerações de guerreiros”.

Pe. POLMAN: OS 60 IMPORTANTES MOMENTOS

Pe. JORGE POLMAN, FALECEU COM 60 ANOS DE IDADE, SEUS TRABALHOS DENTRO DA ASTRONOMIA SÃO ENORMES. DESSE MODO, ESTAREI LISTANDO ABAIXO APENAS 60 MOMENTOS IMPORTANTES NA VIDA DO GRANDE MESTRE, COMO UMA ALUSÃO A SUA IDADE QUANDO EM VIDA:

São enormes as observações que foram feitas pelo Pe. Jorge Polman, ou realizadas por seus alunos e membros do C.E.A. e da S.A.R.. Essa afirmação é facilmente comprovada, se observarmos os boletins mensais que foram feitos a partir de 1974 até 1982. Neles vemos todos os fenômenos astronômicos observáveis na Latitude do Recife, nos quais foram acompanhados seja por Pe. Jorge Polman ou por seus alunos e membros. Fora os citados acima no Kohoutek e no Halley, vemos o seguinte:

1) Pe. Jorge Polman, um dos principais articuladores para a criação da LIADA – Liga Iber-Americana de Astronomia, onde vemos este reconhecimento por parte da própria LIADA, em sua Nota Editorial publicada em seu boletim Universo, número23, Volume 7 de 1987, onde é afirmado o seguinte”En Deciembre de 1982 participó en el II Congreso de Astronomia celebrado en Montevideo, Uruguay, siendo uno de los más ardiente defensores de la creación de la LIADA, lo cual sucedió en esa fecha”;

2) No ano de 1981, Pe. Jorge Polman foi nomeado Conselhiero da IUAA – International Union of Amateur Astronomers em Bruxelas, Bélgica, em sua 5° Assembléia Geral Internacional na 1° quinzena de Agosto de 1981;

3) Por iniciativa quando era Deputado Estadual de Pernambuco, Newton Carneiro, realizou na Assembléia Legislativa de Pernambuco, um VOTO DE APLAUSO ao Pe. Jorge Polman, na condição de Presidente da Sociedade Astronômica do Recife, pelo seu pioneirismo no desenvolvimento da Ciência Astronômica no nosso Estado, fato este registrado oficialmente na Assembléia Legislativa no requerimento número: 2972, e realizado o VOTO DE APLAUSO no dia 28 de maio de 1974;

4) Durante muitos anos, o Pe. Jorge Polman foi um dos astrônomos não profissional, mais ativo da América Latina, onde muitas vezes seus registros eram os únicos publicados na revista Sky and Telescope (conforme denominação da LIADA);

5) Pe. Jorge foi Diretor da Seção de Ocultações por asteróides da LIADA, ao qual era reconhecido pela própria instituição como uma pessoa de muita experiência e precisão;

6) Primeira equipe de Astronomia do Norte/Nordeste a utilizar um micro-computador para cálculos de Astronomia (foi um TK-85 da Microdigital com 48 Kb de memória que utilizava a linguagem BASIC, e era ligado em um aparelho de TV e gravava seus dados em fitas K-7);

7) Uma das primeiras (ou possivelmente a primeira) equipe (s) do Brasil a observar os cometas: Kobayashi; Suzuki-Salgusa-More; Bradfild; Mari-Sato-Salgusa; West; Méier; Seargent; Iras-Araki-Alcoock; D`Arrest;

8) Observação da estrela Nova-Cisne;

9) Todos os eclipse visíveis no Recife durante as duais décadas (70 e 80);

10) Passagem do planetóide (asteróide) razante “Apollo”, classificado como “Earth Grazing Asteróide” (EGA) em 1980;

11) Atividades em Ocultações de Estrelas;

12) Atividades em Estrelas Variáveis;

13) Atividades em Estrelas Duplas;

14) Programa “Lua Incógnita da ALPO (Association of Lunar and Planetary Observers) nos U.S.A.

15) Acompanhamento das órbitas dos planetas Urano e Netuno;

16) Contagem e Classificação das Manchas Solares;

17) Atividades em Ocultações de Asteróides;

18) Importante e rara observação de valor internacional, do Eclipse de Japetus (satélite de Saturno), pelo próprio saturno em Outubro de 1977;

19) Registros das ocultações dos satélites de Júpiter;

20) Implantação do primeiro Radio-telescópio com sistema interferiométrico no Norte e Nordeste do Brasil, por Audemário Prazeres (que financiou e coordenou os trabalhos em 1985), no qual foi informado o sucesso dos registros obtidos a conceituada entidade dos Estados Unidos, S.A.R.A. – Society of Amateur Radio Astronomers;

21) Graças aos alunos formados no antigo C.E.A. e S.A.R., diversas entidades amadoras começaram a surgir no nosso estado e fora dele, como: Clube de Astronomia de Olinda; Clube de Astronomia do Colégio Americano Batista; Clube de Astronomia do Colégio São Luis; Associação de Astronomia da cidade de Moreno; Sociedade astronômica de Pesqueira; Observatório Astronômico Formalhaut em Maceió; Associação Astronômica de Pernambuco A.A.P. (fundada em Carpina por Audemário Prazeres); Observatório Copérnico da cidade de Primavera Pernambuco;, entre outras;

22) A convite do Consulado dos Estados Unidos, em comemoração ao Bicentenário de Independência daquele país, a Sociedade Astronômica do Recife realizou a abertura e apresentação da grandiosa e importante Exposição LANDSAT (Satélite Científico de Exploração da Terra) no Teatro do Parque no dia 21 de Agosto de 1976;

23) No dia 10 de agosto de 1974 era inaugurado pelo Clube Estudantil de Astronomia e pela Sociedade Astronômica do Recife a Cúpula e novas instalações do Observatório Astronômico existente no bairro da Várzea, evento este que saiu no JORNAL NACIONAL da Rede Globo;

24) Dado início do Projeto “Um Planetário para o Recife”, onde acabou sendo construído pelo Governo da Paraíba em seu Centro de Convenções em Tambauzinho João Pessoa. O Planetário ali existente é fruto do projeto da Sociedade Astronômica do Recife – S.A.R.;

25) Na revista Sky and Telescope de Maio de 1977, foi publicado “honra” ao C.E.A., com Pe. Jorge Polman, no qual foi publicado em sua seção “Gleanings for ATM`s” o MICRÔMETRO FILAR de autoria do Pe. Jorge Polman, para medições de estrelas Binárias;

26) Vemos na importante publicação “Occultation Newsletter” n° 10 de Março de 1977 da IOTA – International Occultation Timing Association nos Estados Unidos, informando que no Brasil, havia apenas dois membros daquela importante instituição que faziam periodicamente observações de Ocultações de estrelas pela Lua, um deles era Luis Eduardo Machado e o outro era o Pe. Jorge Polman;

27) Por intermédio de uma luta bastante disputada, o Pe. Jorge Polman conseguiu trazer de Fortaleza para o Recife a UBÁ – União Brasileira de Astronomia, no qual chegou a dirigir e reestruturar nos anos de 1979 e 1980;

28) Pe. Jorge Polman, foi convidado a comparecer em Bruxelas na Bélgica, para o encontro internacional de amadores organizado pela IUAA – International Union of Amateur Astronomers, que tinha como Presidente o renomado astrônomo inglês Patrick Moore em 1979;

29) Criado em Maio de 1985, a Comissão Pró-CEA;

30) Pe. Jorge Polman, representando o Clube estudantil de Astronomia e a Sociedade Astronômica do Recife, se fez presente nos principais encontros regionais e nacionais de Astronomia, sendo o II Encontro de Astronomia do Nordeste, realizado no Clube Estudantil de Astronomia em 1978;

31) A Sociedade Astronômica do Recife – S.A.R., por intermédio do Pe. Jorge Polman, conseguiu ser uma entidade filiada a importante entidade na França: SOCIÉTÉ ASTRONOMIQUE DE FRANCE, sob o número de registro: 28892, publicado no periódico daquela instituição chamado “l`Astronomie”, do m6es de Abril de 1975 em sua página 173;

32) A S.A.R., e o C.E.A., também por intermédio do Pe. Jorge Polman, encaminhava registros observacionais para entidades como: Astro-AGM em Paderborn na Alemanha (que era de observações Solar);

33) Pe. Jorge Polman, foi um dos 4 brasileiros a enviar periodicamente registros solares e a fazer parte do Programa Internacional chamado Inter-Sol-Program, na qual saiu esse registro na Revista SATURN da conceituada entidade Astronomische Arbeitsgemeinschaft de Parderbon, Alemanha;

34) Pe. Jorge Polman, elaborou uma pesquisa inédita sobre o astrônomo holandês George Marcgrave que estava na comitiva de Nassau em Pernambuco, ao qual construiu o primeiro observatório astronômico das Américas. Este trabalho originou em um publicação em 1984, baseada em dados precisos e inéditos, nos quais ainda onde é uma fonte importante de pesquisa nesse tema;

35) Pesquisadores renomados estiveram no Recife para conversar com o Pe. Jorge Polman, entre as quais: Rubens de Azevedo; Ronaldo Rogério; Nilo Perissinoto; Nelson Travnik; Visita do PhD Peter Hunt Presidente da Astronomical Society de Maidenhead da Inglaterra, entre outros;

36) O Conselho Estadual de Educação de Pernambuco cita na Indicação 02/76, da autoria do Conselheiro Carlos Frederico do Rego Maciel, o trabalho educativo do Clube Estudantil de Astronomia e da Sociedade Astronômica do Recife, em prol do desenvolvimento do estudo da Astronomia em Pernambuco, ao qual recomenda o apoio do Secretário de Educação e Cultura a essas entidades;

37) Pe. Jorge Polman, esteve presente representando o C.E.A. e a S.A.R., no II Encontro Nacional de Astronomia, que foi realizado na Paraíba, onde foi neste encontro fundada a UBÁ – União Brasileira de Astronomia. Este encontro teve como patrocínio o Observatório do Valongo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em comemoração ao primeiro centenário de sua fundação;

38) Por solicitação do Pe. Jorge Polman, foi concedido para o C.E.A. e a S.A.R., um sinal exclusivo de Serviço da Hora Falada (em “tops” de segundo), do Observatório Nacional pelo Coordenador do Tempo e Freqüência e tecnologia daquele Observatório, o astrônomo Paulo Mourilhe no dia 26/09/1979;

39) A Sociedade Astronômica do Recife, por intermédio de seu idealizador Geraldo Falcão (membro da S.A.R.), confeccionou o famoso PLANISFÉRIO da SOCIEDADE ASTRONÔMICA DO RECIFE, em 1980;

40) Registro do C.E.A. e da S.A.R., no “Updated Computer Version” de 1978, elaborada pela I.D.A.A.S. – International Directory of Amateur Astronomers Societies com sede em Madri – Espanha;

41) Pe. Jorge Polman, nomeado EDITOR da publicação que acabou dando origem a LIADA, chamada “La Red” na Argentina;

42) Sob a coordenação do Clube Estudantil de Astronomia e da Sociedade Astronômica do Recife, em Dezembro de 1982, foram realizadas várias comemorações sobre o CENTENÁRIO da Passagem do planeta Vênus sob o disco Solar, que foi registrado em Olinda no Alto da Sé;

43) Pe. Jorge Polman, convidado pelo Centro espacial Científico César Lattes” em São Paulo, para assistir o I Ciclo de Palestras Científicas em São Paulo em Agosto de 1976;

44) Pe. Jorge Polman, convidado para inauguração da unidade de extensão da Universidade e do Observatório Astronômico Antares em Feira de Santana na Bahia, pelo Presidente do Conselho da Fundação Universidade Feira de Santana, Dr. Geraldo Leite, em 19/10/1974;

45) Pe. Jorge Polman, fez o registro de Acompanhamento do Cometa ENCKE (muito aguardado em sua época), e foi visto este cometa entre os dia 10 à 28 de Novembro de 1980 quando o mesmo ainda estava na Constelação de Cães de Caça;

46) Pe. Jorge Polman, registrou a rara CONJUNÇÃO TRÍPLICE de Júpiter e Saturno, nos dias 31 de Dezembro de 1981 e 04 de Março e 23 de Junho de 1981, quando os planetas Júpiter e Saturno estavam em conjunção a pouco mais de 1° grau somente. Esse tipo de Conjunção Tríplice só ocorreram nos anos de 1425, 1683; 1941; 1981, a próxima será no ano de 2239;

47) J. Manfroid, do European Southern Observatory, em Genebra, Suíça, registrou o C.E.A. na lista de associações brasileiras para servir de apoio aos grandes observatórios da Cordilheira dos Andes no Chile (publicado este informe no boletim do C.E.A., de Maio de 1978);

48) Observações foram feitas no Cometa Crommelin, no qual foi escolhido pelo IHW – International Helley Watch da NASA, para testar o sistema de integração de dados com as instituições astronômicas que iriam enviar dados ao comitê IHW em 20 de Fevereiro de 1984;

49) Pe. Jorge Polman, esteve proferindo palestras e estendendo o intercâmbio da Astronomia de Pernambuco nos estados do Rio Grande do Sul; Santa Catarina; São Paulo; Rio de Janeiro e Minas Gerais, na condição de Presidente da U.B.A. (vemos citado o roteiro no boletim Astronômico de Dezembro de 1979);

50) Pe. Jorge Polman, montou no antigo Clube Estudantil de Astronomia uma oficina completa para construção de telescópios. Chegando inclusive a construir o telescópio “Tequinho”de 6”polegadas, com micro regulagem manual e montagem equatorial alemã;

51) Na AAVSO – American Association of Variable Observaers, Pe. Jorge Polman, representando o Clube Estudantil de Astronomia juntamente com a Sociedade Astronômica do Recife, foram as únicas entidades no Brasil a possuir a Licença dessa importante instituição, para enviar os mapas de busca de Variáveis, fornecer formulários e apostilas, e conceder o Prêmio Argelander ao observador mais ativo de Estrelas variáveis do Brasil; e tantas outras instituições de renome espalhadas pelo mundo;

52) Primeira equipe amadora do Brasil a redescobrir e fotografar o Cometa Halley no Brasil, coordenada por Audemário Prazeres em Outubro de 1985;

53) Nos anos 70, o C.E.A. e a S.A.R., possuíam uma média de 150 alunos que se formavam nos cursos de Iniciação em Astronomia (dado de Pe. Jorge Polman, publicado no Jornal Universitário de Jan, Fev, Mar de 1976 em sua página 2, onde tem uma excelente reportagem com ele);

54) A Sociedade Astronômica do Recife – S.A.R., foi a primeira entidade de Astronomia em Pernambuco, registrada oficialmente em cartório, com Estatuto próprio, além de possuir o seu cadastro de CGC como uma instituição legal frente a Receita Federal;

55) Finalmente no ano de 1985, tendo Audemário Prazeres exercendo o cargo de Vice-Presidente do C.E.A., foi constituído o Clube o seu registro em Cartório e conseqüentemente a obtenção do CGC do antigo C.EA., fato este publicado no Diário Oficial do dia 30 de Julho de 1985;

56) Em meados de início de Setembro de 1983, chega ao Clube Estudantil de Astronomia, o então jovem de 18 anos, Audemário Prazeres, tendo em suas mãos uma carta datada do dia 29 de Agosto de 1983, e assinada pelo Prof. Dr. Luiz Eduardo Machado, então Diretor do Observatório do Valongo no Rio de Janeiro, fazendo a minha indicação ao Pe. Jorge Polman, de que ele me ajudasse em uma construção de uma pequena luneta refratora, ao qual eu tinha comprado algumas lentes para a sua construção. Foi então que conheci o Pe. Jorge Polman, e fui convidado por ele a fazer parte do C.E.A., o que eu aceitei de imediato. (nos anexos vemos esta carta do Prof. Machado);

57) Pe. Jorge Polman, criou na sua gestão da U.B.A., em 1979 e 1980 o Clube Messier, que era uma atividade largamente feita por vários amadores. Esse clube emitia certificados qualificados como de 1°, 2° e 3° graus, que retratava uma certa quantidade de objetos Messier então vistos por esses observadores;

58) Elaboração de um artigo polêmico por Pe. Jorge Polman, chamado “Astrologia Cabalística ou Verdade?” publicados em parte no Boletim Astronômico na década de 80;

59) Falecimento do Pe. Jorge Polman no dia 02 de Junho de 1987, às 11 horas da manhã, ainda em seu toalete no novo aposento interno da Ordem, o Pe. Jorge Polman foi vítima de um derrame cerebral, sendo socorrido as pressas no hospital Neuro situado na Av. Caxangá no Recife, ao qual não resistiu e veio a falecer ainda na U.T.I. Seu corpo encontra-se enterrado no Cemitério da Várzea (Recife), no enorme jazigo pertencente a Ordem do Sagrado Coração de Jesus, local este onde são enterrados seus sacerdotes.